Quando o valor de um jovem passa a depender do que ele entrega em campo
- Fábio Rodrigues

- 31 de jul.
- 2 min de leitura
No futebol de base brasileiro, há um fenômeno silencioso que poucos enxergam, mas que molda vidas inteiras: a transformação da autoestima juvenil em um marcador de desempenho. O menino que entra em campo para jogar não está apenas disputando vaga no time — está disputando valor pessoal. E isso é devastador.

A lógica é simples e cruel: se joga bem, é bom; se joga mal, vale menos. A identidade do jovem passa a ser construída em torno de métricas externas — gols, minutos jogados, avaliações técnicas, impressões de treinadores. Ele aprende cedo que não basta ser, é preciso provar. E provar o tempo todo.
O problema é que essa dinâmica acontece justamente na adolescência, fase em que o sujeito está tentando descobrir quem é. Em vez de construir uma identidade múltipla, rica, cheia de possibilidades, o jovem atleta aprende a se ver como uma coisa só: jogador. Sua autoestima se estreita, sua subjetividade se empobrece, seu futuro se reduz a uma única narrativa — “dar certo no futebol”.
E quando o rendimento cai? Quando a lesão chega? Quando o corte acontece? A autoestima desaba junto. O jovem não perde apenas espaço no time; perde o chão emocional que sustentava sua identidade. Ele não sabe quem é sem o futebol, porque nunca lhe permitiram ser outra coisa.
A cultura esportiva reforça esse ciclo. Treinadores, clubes e até famílias reproduzem discursos que associam valor pessoal ao desempenho. Elogios, atenção e reconhecimento são distribuídos conforme o rendimento. O jovem percebe isso. Ele sente isso. Ele internaliza isso. E passa a acreditar que só existe enquanto entrega.
Para piorar, o futebol de base ainda é atravessado por estereótipos, que criam comportamentos tóxicos. O menino aprende a silenciar emoções, a esconder inseguranças, a lidar sozinho com frustrações profundas. Ele não pode falhar — não apenas porque teme perder vaga, mas porque teme perder valor.
É aqui que precisamos ser honestos: estamos formando atletas emocionalmente vulneráveis, identidades frágeis e jovens incapazes de imaginar futuros para além do esporte. Estamos ensinando que o valor de um adolescente depende do que ele produz, não do que ele é. E isso não é formação — é violência simbólica.
O futebol pode ser espaço de desenvolvimento humano, mas não será enquanto tratarmos jovens como produtos em avaliação constante. A autoestima não pode ser condicionada ao desempenho. A identidade não pode ser reduzida ao papel de jogador. O futuro não pode ser limitado à promessa de ascensão esportiva.
Se queremos formar atletas — e, mais importante, formar pessoas — precisamos mudar a lógica. Precisamos criar ambientes que reconheçam o jovem como sujeito em desenvolvimento, que valorizem múltiplas dimensões da vida, que ofereçam suporte emocional, que permitam fragilidade, que acolham dúvidas, que incentivem outros projetos.
Porque, no fim das contas, o futebol é apenas uma parte da vida. E nenhum jovem deveria acreditar que é a única.




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